- Também.
Eu olho para seus olhos com medo que eles saíam do lugar.
- Me... desculpa – ele
gaguejou – Não foi minha ... minha ... intenção. Me desculpe mesmo.
Eu não sabia o que
fazer. Queria beijá-lo e sentir o suor de seus corpo encostado no meu. Mas ao
mesmo tempo eu não quero prejudicar sua vida. Ele deve ter tantos amigos.
Imagina se um deles descobre que ele está saindo com uma garota sem peito,
careca e doente?
Seria o fim da vida
dele.
Sem hesitar, levanto-me
e olho bem profundo, dessa vez, nos seus olhos. ‘’Desculpe-me’’, espero que ele
tenha recebido o recado. Volto para o hospital e dou minha última olhada no Jim
e nos seus olhos verde-mar.
~ 1 mês depois ~
Jim não existe mais.
Desde quando o dei um
fora (nem sei se chegou a ser um fora mesmo, aliás, nem nos conhecíamos) no
Jardim das Margaridas, nunca mais o vi, nem ouvi seu nome e nem olhei para seus
lindos olhos. Faz três dias que tive minha nona consulta ao Dr. Gray e os
resultados não foram bons.
Puta que pariu. Era só
essa que me faltava.
Meu tumor aumentou.
- Senhora Singer
acalme-se, por favor! – o Dr. Gray gritava e sua voz rouca e velha atormentava
meus ouvidos. E se virou para a recepcionista que veio ver qual era o motivo do
grito – Traga um copo d’ água para ela por favor!
Um
copo d’ água. Foi em um
simples encontro de copos d’ águas que eu conheci o Jim.
‘’Esquece ele, pelo amor
de Deus’’, pensei mais meus pensamentos estavam perdidos em olhos verdes-mar.
Desde que Jim sumiu da
minha vida, eu fiquei um pouco mais rebelde (como pensa minha mãe). Foi como um
amor à primeira vista ... eu não consigo esquecê-lo. Tenho medo de estar
amando, e só de pensar que eu estou ‘’gostando’’ de alguém já me dá um arrepio
na espinha.
E para piorar, o
resultado também veio para a minha doença. Constrangedor, né?
Eu sempre tomo os
remédios em dia, é claro, com uma mãe que segue a tua sombra onde quer que você
vá, é impossível não tomar. Então, acho que Jim longe de mim fez minha saúde
piorar.
O Jim é uma doença para
mim.
Já se faz uma semana
desde a última consulta minha ao Dr. Gray, e depois do escândalo da minha mãe e
da apresentação do diagnóstico, minha mãe já marcou para amanhã uma consulta ao
oncologista. Sinto medo só de pensar tendo que fazer quimioterapia.
- Mãe estou com fome. –
digo, friamente, pois ontem nós brigamos porque eu queria assistir um reality show de moda na TV e ela queria assistir um programa idiota em que uns homens
ficavam levantando peso. Nem é Olimpíada, certo? – Tem o que para comer?
Ela não responde. Tiro
os fones de ouvido do meu celular e vou para a cozinha. Chegando lá minha mãe
está sentada na cadeira oval que ocupa o noventa e três por cento da cozinha.
Seus olhos estavam encharcados de lágrimas.
- O que foi?... –
gaguejo.
- Acabei de receber uma
ligação do Dr. Gray – ela enxugou as lágrimas com o dedo e soluçou – Você terá
que fazer transplante.
Não digo nada, o que sai
da minha boca mesmo é ‘’Ah’’.
- Transplante? –
pergunto.
- Sim. De hemácias e
plaquetas.
Assenti.
- Não vai doer não, né?
– pergunto.
- Não sei. Nunca fiz
para saber. Você me conta depois.
Faço uma careta com a
língua para ela e ela ri.
- Vá para o quarto. Já
levo alguma coisa para você comer lá.
Hoje quando acordei tive
uma péssima notícia.
Fui ao banheiro e escovei
meus dentes para retirar o mal hálito. Depois do banho fui tomar café da manhã
com minha mãe em uma padaria e fomos para o Dr. Yan, o oncologista em que minha
mãe tinha marcado minha consulta.
A recepcionista pediu
minha ficha e minha mãe disse que eu era nova ali.
- Carteira de
identidade? – ela perguntou e minha mãe entregou à ela. Se tem uma coisa que eu
odeio é o meu RG. Porque tem que tirar foto séria?
Depois de fazer meu
cadastro nessa clínica idiota, minha mãe e eu ficamos sentadas no sofá esperando
a hora da consulta.
- Leia uma revista. –
disse minha mãe apontando para o revisteiro – Ler é ótimo.
- Mãe, tenha uma noção
do que eu gosto de ler: se você me der algum livro interessante, tipo Diário de um Banana ou até mesmo O Manual do Câncer eu leio. – digo e ela
ri – Mas agora não venha com essas revistas de fofoca não.
Ela fez careta.
O médico apareceu. Meu
deus, como ele era feio. Para começar ele era anão. Não sou preconceituosa (e nem devo ser), mas
até eu era maior que ele. E tinha um bigode do tipo Hitler que me dava nojo na
espinha. Por um momento eu desejei a leucemia do que ser a mãe dessa pessoa.
- Sra. Tiffany Singer –
e para piorar a voz dele parecia a do Gollum do Senhor dos Anéis.
Ao chegar no
consultório, senti cheiro de borboletas e perfume de mel. Esqueci a feiura do
médico e fiquei sentindo a brisa.
Minha mãe entregou meus
exames ao médico anãozinho e ele avaliou com seus olhos pretos que parecia ovos
de codorna de um lado para o outro.
Ficamos por volta de
algumas horas no consultório. ‘’ Espero que quem esteja do lado de fora não
seja nervoso ‘’, pensei, mas não era isso que me preocupava. E sim quanto tempo
eu teria uma visão boa, porque comecei a sentir sinal de cegueira de tanto ver
o Dr. Yan.
Depois do término da consulta e de fazer alguns exames fiquei feliz por não estar mais perto do Dr. Yan-da-voz-do-Gollum.
Depois do término da consulta e de fazer alguns exames fiquei feliz por não estar mais perto do Dr. Yan-da-voz-do-Gollum.
Passou-se uma semana e
ontem mesmo eu fiz o transplante de hemácias e plaquetas. Fui de novo ao Dr.
Gray mais Jim não estava lá. ‘’Vadio’’.
Minha saúde estava
melhorando, o que fez o Dr. Gray pensar que aí estava o caminho para a minha
cura.
Minha mãe que agora
estava mais feliz do que ALF, o ETeimoso pulava de alegria. Para comemorar
íamos ao McDonald’s comer batata frita e hambúrguer.
- Filha vai querer
hambúrguer de que?
- Um McChicken, por
favor. – ela assentiu – Vou ir procurar um lugar, ok??
Ela fez que sim com a
cabeça. O McDonald’s estava lotado, não tinha nenhuma mesa sem ocupante, exceto
uma que estava parada lá no fim do corredor.
Mas no momento em que
pisquei meus olhos uma pessoa já tinha sentado lá.
E essa pessoa era Jim.
