Os seus olhos verde-mar encontram-se com os meus.
''Putz'' , pensei, '' não é todo dia que vejo um desses. ''
Seus cabelos são loiros com tons pretos e liso. Ele é forte e musculoso, parece até aqueles homens que só vivem para malhar.
'' Ele nunca olharia para mim, uma careca da vida '' penso e depois olho para minha careca coberta pelo capuz do casaco.
Ele andou em direção a porta e foi-se para um mundo de garotas gostosas, peitudas e não carecas.
'' Não posso culpá-lo por não olhar para mim. Existe coisa muito melhor '', penso tristemente.
Sem pensar esqueço de minha mãe e vou para o Jardim das Margaridas.
O jardim se localiza na entrada do Hospital. É um vasto campo de terra polida por margaridas. É lindo, uma das coisas mas belas e puras que já vi na minha vida e que provavelmente, não terei muito tempo para ver.
- Pois não? - pergunta a recepcionista, e enfim noto-a olhando-me.
- Vou ali no jardim, somente. - ''Porra que mulher intrometida!''
Já não aguento mais essa vida de leucemia para cá, e leucemia para lá. Penso em tudo que aconteceu durante esses anos na luta contra a doença e pretendo chorar.
Como sempre, estava errada.
O menino bonito do corredor estava lá.
Ele estava sentando no banco, olhando para o chão com as mãos no bolso da calça comprida.
Minha sombra irrompeu seu campo de visão e ele virou-se, percebendo minha presença. Ele parecia surpreso.
- Ah - gaguejou - Ah...
Nada respondi.
- Você é a garota do bebedouro, né? - perguntou-me.
Assenti.
- Ah prazer, eu sou o Jim.
Jim.
Jim, Jim, Jim.
Jim. Seu nome ecoa em meu ouvido.
- Sou Tiffany.
- Que lindo nome - disse e retirou suas mãos do bolso - Por que não tira esse capuz?
Lembrei-me de tudo que havia esquecido por minutos: da leucemia, da careca, do Dr. Gray e da berrante mãe que tenho.
- Acho melhor não.
- Ah, qual foi? -perguntou - Não vou te avacalhar.
Puta que pariu, tiro ou não tiro?
Levo as mãos ao capuz e puxo-o. Jim faz cara de espantado, que o deixa sexy demais. Olho para o céu azul, querendo não saber o que vai acontecer agora.
- Oh , oh - gagueja novamente ele, dessa vez olhando para minha careca - O que foi isso? Câncer?
- Leucemia - corrijo-o.
Ele cobriu a boca com a mão e disse:
- Nossa, Tiffany, me desculpe ... - e o interrompo.
- Cara eu não intendo porque as pessoas se desculpam por algo que não fizeram - digo e rimos juntos. Ele é amigável e até legal.
Sua rizada é a coisa mais linda e meiga que já ouvi. Ela parece mel de tão doce.
Fico feliz por estar feliz.
- Mas então .. - disse Jim pondo sua mão sobre a minha depois de conversarmos sobre jujubas, Coca-Cola, M&M e cinema - E a sua leucemia? - não intendo o que ele quer dizer, mas chuto.
- Descobri que tenho leucemia há três anos. A minha é do tipo aguda.
- E ela pode matar? - perguntou.
- Claro, se não tiver tratamento médico adequado - parei - Posso te contar minha história?
Ele assentiu.
- Desde o dia em que nasci, meu pai desapareceu. Nunca tiveram notícias dele, o que me levou a depressão aos seis anos.
'' Quando cheguei aos treze, era comum todos os dias eu desmaiar na hora do recreio ou perceber que o volume do cabelo estava ficando menor. Viva sempre tonta e com fortes dores de cabeça. Sentia muito sono e tinha pouco apetite. Um dia, fui ao médico.
Ele me olhava como se eu fosse a mulher de seus sonhos e me deu uma enorme vontade de beijá-lo e de fazê-lo meu, coisa que eu nunca senti.
Continuei:
- Depois dos exames, era óbvio que eu estava com leucemia. Em meses fiquei careca e mais uma vez caí em depressão. Desde então, estou na luta.
Sorri de uma forma que tentasse quebrar o silêncio que se passava, mais ele não retribuiu.
Pensei que ele ia perguntar-me alguma coisa relacionada a minha história, mas o que saiu dos seus lábios foram apenas essa pergunta que me deu vontade de vomitar:
- Você já namorou?
- Não !! ... - respondo.
- Já teve vontade? - perguntou, e eu estava perdendo o rumo dessa conversa.
- Não sei .. - não sei se falei a verdade, porque o homem que me deixou pela primeira vez com a ''vontade de querer namorar'' estava na minha frente.
Ele me pergunta:
- Você quer sair comigo? - ele fica meio vermelho - Sei lá, tipo ir ao cinema.
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